No dia da Mulher eu quiser ser homem.
Sim, quis de verdade!
Sempre invejei a possibilidade de fazer xixi em pé e a comodidade de fazer uma coisa só por vez.
Neste dia então, mais ainda, desejei ardentemente a displicência masculina e a arte inconfundível de nunca encontrar o que se procura...
Quis não precisar depilar a cada 15 dias e ser livre!
Não ter que me preocupar se a unha está feita, não ter que escolher ou combinar cor de esmalte, não ser obrigada a ir ao salão e esperar sentada a vez de gastar tempo e dinheiro pra ficar enfeitada pro resto do mundo.
Sim, eu quis ser homem!
E descobri em mim um desejo louco em desprezar o salto alto e mergulhar de cabeça no mundo da descombinação: sapato sem meia, xadrez com estampado e a liberdade infinda de todas as ocasiões chamada chinelo.
Descobri um lado masculino querendo ter 50% da prole sem ter 100% dela no ventre.
Quis não ter cólica, menstruação ou TPM e suas preocupações conjugadas.
Nada de sutiã apertando nem calcinhas especiais que não marcam a roupa.
Nada de lingerie combinando, celulite, estrias, gordura localizada e afins. Não mais!
Sonhei com a ideia de ficar pronta pra sair de casa em 5 minutos, mesmo se o evento fosse a ida ao boteco, um casamento ou um baile de formatura.
Queria que minha maior preocupação fosse o nó da gravata!
Pisar no ralo e cuspir no chão! Por que não?
Quis ser homem sim, confesso, e flagrei-me feliz com a ideia de lavar o cabelo com sabonete na falta de xampu, sem me questionar se ia ou não danificar os fios...
Feliz em calçar um tênis qualquer se não encontrasse o sapato.
Quis sentar sem me preocupar com modos;
estufar o peito e partir pra briga;
fazer um gol e partir pro abraço!
Quis ter sido menino e jogado bola, soltado pipa, peão, brincado de vídeo game, me estrupiado em lutinhas...
Mas desperto do devaneio: o fecho do sutiã pinica e o aro incomoda.
Volto ao meu mundo cor-de-rosa-cinza-escuro de dar conta de mil coisas ao mesmo tempo.
Conserto a roupa íntima, disfarçadamente, arrumo o cabelo e caio na realidade do universo feminino:
beleza, força e simpatia; eficiência, elegância e inteligência; pontualidade, assertividade, perfume, drama, choro e estresse, um pouco de blush e batom vermelho de arremate, queridos, porque sem um pouquinho de glamour a gente não dá conta do recado!
A quaresma é o período do ano Litúrgico que precede a Páscoa, sendo celebrada por algumas igrejas cristãs, como a Católica, a Ortodoxa, Anglicana e a Luterana.
Compreende um período de quarenta dias, cujo objetivo é a preparação do espírito para a celebração da ressurreição de Cristo através de jejum, abstinência, caridade e orações.
Existe muita história explicando o sentido dos quarenta dias, com passagens bíblicas significativas mencionando esse número, dentre elas, o tempo de viagem do povo judeu do Egito até a Terra Prometida (quarenta anos); após o dilúvio, leva cerca de quarenta dias para que seja de novo tocada a terra firme; durante quarenta dias e quarenta noites Jesus faz seu retiro no deserto e, após ressuscitado, permanece também quarenta dias entre os discípulos antes de ascender ao céu.
Há muitos significados, mas o mais importante mesmo é o que determinamos de mudanças em nossas vidas neste período.
Questiono como posso viver o real sentido de conversão se não modifico minhas ações e condutas.
Questiono como posso ser cristão numa época tão conturbada, cheia de desvios e opções mais fáceis?
Que tipo de cristão eu sou nos dias de hoje?
Como posso ser cristão quando esqueço a caridade e o bem pelo próximo?
Que tipo de cristão sou eu se elevo a voz e parto pro confronto sem ao menos tentar o diálogo?
Se prefiro a rudez do silêncio em vez da amabilidade das palavras certas?
Se prefiro a mentira em vez da verdade, se a omissão é frequente e se o engano é usual?
Como posso ser cristão se não falo com meu irmão ou se cortei relações com meus pais?
Como ir á igreja e fazer as preces se discuto e brigo por comida com quem convive comigo?
Se o dinheiro comanda meus dias e se faço do lucro e do status a razão da minha existência?
Como orar se não sei sorrir com vontade, elogiar com sinceridade ou abraçar sem medo de demonstrar sentimento?
Que tipo de cristão eu sou se cobiço o bem do outro, se invejo a posição alheia e se resmungo do trabalho que provê o meu sustento?
Que tipo de cristão eu sou se não perdoo a ofensa, se não estendo a mão a quem errou, se não permito uma nova chance, um recomeço ou uma mudança?
Que luz eu pretendo ser num período de trevas, do hedonismo sem limites, de falta de fé e de valores?
Não pretendo catequizar ninguém. Tampouco convencer alguém de algo.
Penso que a fé não se explica, se vive e sente. E eu me orgulho da minha.
Pois é ela quem me fortalece e me mantém em pé.
Quero apenas ser um cristão que faz a diferença: seja arrancando um sorriso numa brincadeira leve, num abraço sincero, levando minha religião no bolso e no peito, sem vergonha do que vivo.
Quero me transformar numa pessoa melhor usando o período de penitência e oração para refletir sobre meus erros e como acertá-los.
E você? Que tipo de cristão que ser?
O tempo passa, o tempo voa.
Mas continua tudo igual.
Não percebo a diferença do ano passado; nem do anterior, do anterior...
Não vejo a diferença do tempo de agora;
Não vejo o tempo por mais que ele se mostre.
Há sempre uma sequência de fatos e pessoas que se repetem
e a sensação de dejavù também retorna.
Andando em círculos,
repetindo os mesmo erros,
as mesmas cenas, as mesmas atitudes.
Chorando as mesmas lágrimas sem graça
e lamentando sempre a mesma tragédia pessoal.
O convite continua único, o feriado continua solto.
A garrafa permanece fechada, a comemoração está adiada.
Continuo esperando o que não vem.
Continuo aguardando o que nunca vai chegar.
Espero o inexistente, acredito nas mentiras que me contam.
Acredito nas pessoas, que nunca mudam, e no tempo, que cura nada!
Repetição atrás de repetição, sem novidades, sem verdades.
O que eu quero é um relógio novo.
Que marque o tempo de trás pra frente.
Que faça as horas diferente.
Quero um dia novo, uma vontade nova.
Quero que o tempo deixe de passar, pois mesmo voando,
nada muda na minha vida.
Não vou reclamar do marasmo. Nem posso.
Diante de tanta desgraça presenciada
não acredito que possa ousar a elevar a voz para esbravejar ou reivindicar algo.
Sim, precisava do ostracismo, da reclusão, da falta de opção.
Só assim, sem opção a gente aceita: a solidão, o tédio, o cansaço e o descanso,
o acaso e o descaso da gente com a vida e da vida com a gente.
Comendo petisco, vendo tv e lendo 3 livros ao mesmo tempo,
fugindo da memória, tentando esquecer as responsabilidades por míseros dias.
Nem em sonho me larga o trabalho.
E olho a programação sem programa com a preguiça de quem vê a chuva pela janela.
Não me importa se o mundo grita lá fora, se as pessoas cantam e dançam festejando.
Eu, aqui dentro, permaneço de folga.
Não quero conflitos.
O alívio veio disfarçado, escondido na possibilidade do desencontro.
Está bom assim.
Dias de calma.
O meu carnaval é em paz: com meus pensamentos,
com minhas escolhas e exclusões,
com meu silêncio, com minha falta de companhia.
Não posso reclamar.
Mergulhei em meus pensamentos no meio da aula.
Atividade física feita com cara de hipnose.
De repente, uma lembrança distante, vinda de não sei onde,
por motivos mais enigmáticos ainda se montou na minha frente, com detalhes.
E mais fatos, e mais lembranças e mais e mais foram se juntando a cada cena.
E entendi, assustadoramente, como pude ser vitimizada por mim mesma por tanto tempo.
Terminei os exercícios ainda em transe, sem entender como o pensamento se organiza assim, tão desorganizadamente.
Concluí que, apesar do auto boicote fui maltratada também por outras pessoas.
Tive raiva mais de mim que dos meus algozes.
Tive pena de mim, pela fraqueza.
E prometi não mais fraquejar.
Tive pena de quem não se resolveu na vida.
Quem mastiga o músculo e cospe a carne no fim.
Senti vergonha da própria exposição.
Vergonha imensa dos sentimentos absurdos que brotam na gente.
Vergonha de perdoar, de esquecer.
Descobri na alma o real significado de um insight.
Doeu.
Calo que aperta, ele conserta.
Roupa rota? Remendo na certa!
Botão perdido? Leve-o consigo!
Alça do sutiã arrebentada pode ser emendada.
Aro que extrapola: esparadrapo que enrola.
Pasta envelhecida? Papel escarafunchado?
Passa um esparadrapo em volta que tá consertado!
Machucado? Faz curativo.
Cola tudo, ajeita fácil.
Prende, amarra e solda.
Gruda o que precisa ser juntado.
No dedo, no braço, na testa.
Não interessa onde ficar.
Pode até mesmo calar
se na boca de alguém eu usar.
E o dia termina assim:
um corpo cansado,
uma mente com sono,
uma dorzinha chata na cabeça
e a sensação de que se fez tudo que se pode.
Explorei do fim de semana o que consegui.
Abracei o dia de sol,
contemplei o mar,
dediquei-me aos meus,
dispensei tempo e preguiça
por curtir o nada de um momento pós almoço em família,
subi o monte e rezei,
mais agradecendo que pedindo.
Revi amigos, ri muito
e cantei alto e dancei.
Vi pessoas estranhas,
conversei com gente querida,
abracei quem me quer bem.
Respondi rápido,
outras vezes, nem sabia o que dizer.
Trabalhei, reclamei, divaguei,
pensei muito e ponderei,
fiz piada, pedi ajuda na cara dura, suportei.
Vi o tempo não passar,
passeei no tempo.
Consumiu-me o alimento,
vi o sol sair e pousar.
Senti o peso da vida,
o desânimo das horas,
tive vontade de ir embora,
parti.
E o dia termina assim:
prece por uma semana tranquila,
oração com pedidos secretos,
planejamentos para os dias que seguem,
desejos de um fevereiro breve,
soluções para problemas antigos,
amnésia cardíaca,
muito autocontrole,
cumprir o que me prometi,
não esticar conversa
com quem não interessa.