quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Saudade



Hoje é o dia da saudade?
Pois informo: saudade não tem dia, não tem hora.
Pode aparecer numa manhã, roubar-lhe a tarde, 
vir á noitinha ou tirar-lhe o sono na madrugada.
Saudade pode ser o dia inteiro!
Pode ser triste ou alegre.
Pode ser reminiscências, nostalgia.
Pode ser uma alegria de um momento feliz que se foi.
Pode ser uma ausência, uma presença íntima.
Saudade arde como um joelho ralado.
Incomoda como dor de cabeça.
Oprime o peito como infarto.
Saudade faz sorrir sem motivo,
causa frio na barriga quando traz á memória 
uma figura querida.
Saudade é encantamento,
é obra inacabada por alguém.
Saudade de um momento, de um dia especial.
Saudade de uma época, de uma pessoa,
Saudade de um cheiro ou da fortaleza de um abraço.
Saudade de uma galera, da bagunça ou da organização.
Saudade do que poderia ter sido e não foi.
Saudade do que nem aconteceu...
Saudade do que nunca acontecerá.
A saudade é atemporal.
Todo dia é dia de saudade.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Janeiro

E janeiro é sempre um adeus.
Todo janeiro me traz um desapego, uma despedida.
Deixo na estrada um projeto, 
desisto de algum plano,
aborto um sonho,
esqueço um propósito,
me obrigo a esquecer tantas outras coisas.
É um início de ano com aceno.
Abano as ideias ruins,
espanto aqueles que causam choro,
evito o que me provoca dor.
Mês longo e dolorido,
de escolhas, de escalas, de esquisitices.
E janeiro me castiga com uma folga fictícia,
que existe apenas no calendário.
Tortura com o calor do trabalho incessante,
traz sonhos que não se realizam,
lembranças que adoecem,
memórias que deveriam ter ficado no passado.
Janeiro é sempre difícil!
Começo ruidoso, barulhento, de alma inquieta.
Janeiro é um cansaço disfarçado,
um projeto de verão frustrado,
um grande tchau pra muita gente.
Nesta última semana me despeço.
Deixo janeiro e com ele o mau humor e o desânimo.
Esqueço todos os planos que não vingaram até aqui.
Deixo quem quiser partir.
Janeiro é um aceno doído.
Difícil sufocar o que vem de volta.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Sobre o gostar

E é assim, de um gostar pequenino, 
que se deseja alguém pra vida: 
de compartilhar ideias, contar novidade, 
dividir o tudo e o nada;
Um sonho, um plano, uma dúvida, 
uma angústia, um desejo, um receio 
ou a piada mais sem graça que há.
Pode ser também de um gostar assim, imenso,
generoso, que enche o peito.
Mas no fim, também é um compartilhamento, 
uma forma mais ampla de gostar.
Pra mim, se é egoísta, não é amor, não é gostar.
Quem curte muito, divide, espalha, partilha.
Querer apenas pra si, é solidão.
Esconder-se do outro, ás vezes, é auto-flagelo
Depender de alguém pra existir é doença: 
não há gostar que dure assim!
Gostar é querer estar perto, 
é saborear a presença.
E a ausência é saudade boa, que antecipa o retorno.
É saber que se é feliz sozinho, 
mas que se pode ser muito mais feliz agregando o que o outro tem de bom.
Alguém pra vida, é conta de mais, de menos, multiplicação e divisão.
É matemática pura, equilibrando razão e emoção.
Ainda tem quem, sozinho, queira guardar tudo pra si.
Esquecendo que dividir ainda é um bem maior!
E assim, muita gente segue sem apoio pra descansar no caminho,
sem uma palavra de conforto no sufoco da vida,
sem uma opinião sincera que mude o pensamento,
sem uma risada autêntica e sem motivo.
Num mundo de tanta comunicação,
há muita gente guardando tudo no bolso, no peito, na mente.
Há quem desista de querer alguém pra vida
por se achar auto-suficiente.
E é assim, de um gostar pequenino ou de um gostar generoso,
que se procura alguém pra vida.
Porque será tristonho e vazio nunca poder dividir.




sábado, 18 de janeiro de 2014

Adeus

Era um adolescente normal, no que pode ser normal a adolescência: ia a escola, tinha vários amigos, escutava músicas no ipod, usava os joguinhos do celular e internet. Inteligente e perspicaz o suficiente para compreender que as mudanças que se seguiam eram dolorosas e praticamente incompatíveis com este período da vida.
Traços e porte de menino, esperteza de menino,  olhos atentos de menino, beleza viva de menino.
Doença de gente grande.
E a alegria deu lugar á tristeza, a letice foi sucumbindo ao mau humor.
Os sangramentos e hematomas, cada vez mais frequentes assustavam a família.
O menino, atormentado, percebia que piorava.
A família, educada e companheira, sempre ao lado também percebia que a melhora custava a chegar.
Na verdade, tudo ia piorando: a saúde, o humor, a doença.
A valentia dormiu. As forças esmoreceram. 
Depois de meses de tratamento e sofrimento ele partiu.
A mãe se conformou. 
Acredito que assistir a morte em vida seja pior que entregar um filho á morte de verdade.
E num abraço sincero e forte, desejei apenas a misericórdia divina e o consolo Paterno.
Ela leva de volta pra casa um corpo sem vida, castigado e emagrecido, tão diferente daquele que ela ajudou a criar...
Leva pra casa um sonho quebrado, um futuro mutilado e o coração partido.
Que a vida é breve, já sabemos.
Mas pode também ser dura muitas vezes.
Cabe a nós transformar cada momento, proporcionando um pouco de alegria e conforto onde já existe tanta dor.
Falar o que sente, não guardar sentimentos, viver de forma leve, aproveitar os bons momentos, porque a fugacidade é verdade. 
Que a despedida seja festiva e diária, com o melhor que se pode oferecer á alguém.
E  vejo, quase todos os dias,  que pode não haver tempo de um adeus.


domingo, 8 de dezembro de 2013

Ano que vem

Estou me preparando.
Certamente, ano que vem, já serei melhor que agora.
Treinamento intensivo, ano duro, doído, porém com ensinamentos profundos.
Ralada, mas esperta.
Viva, mas disfarçada, porque o mimetismo é necessário.
Acordada, mas descansando.
Descansando, porém alerta.
Aprendi que o mundo não é dos mais espertos, embora eles se aboletem na primeira cadeira roubando o lugarzinho da janela antes de todo mundo.
Aprendi que a dor do outro é bem pior. Sempre.
A nossa pode até ser mais sentida, mas em tamanho mesmo, a do outro se agiganta enormemente diante de tanta desgraça nesta vida.
Aprendi a dizer não e a não dizer, dizer menos sim e mais talvez.
Pensei alto e falei baixo. Muito mais vezes que o contrário.
E aprendi que faz mais efeito escutar que falar; ouvir, que julgar e pedir que mandar.
Chorei pouco, engoli mais choro que o normal.
Mas digeri tudo e no fim das contas não desceu tão ruim assim.
Estou me preparando para o trabalho árduo que vem, mas tranquila por achar que deixei o caminho meio pronto.
Às vezes acho que errei de caminho também.
Mas só vou descobrir ano que vem.


domingo, 24 de novembro de 2013

Parece, mas não é.

Nem tudo é o que parece ser.
Nem toda informação veiculada pela mídia é verdadeira.
Nem toda história pode ser na realidade como foi contada.
Uma foto postada pela metade, uma frase interrompida, um parágrafo não editado pode mudar radicalmente a informação.
Troca-se então de sujeito, de predicado e de complemento.
E quem é réu, torna-se vítima. O algoz, vira refém.
Anda circulando a informação de que um médico cubano foi afastado de suas atividades após ter prescrito dose errada de medicação a uma criança.
A informação é esta. Resta saber de onde ela foi obtida e como.
Alguém viu a receita de forma completa? Ou foi divulgada apenas em parte?
Será que as gotas prescritas não eram a dose do dia inteiro e não apenas de uma tomada?
Será que alguém ouviu a defesa do médico?
O responsável pelo paciente foi questionado em relação ao atendimento que foi prestado e dúvidas sobre o esclarecimento do receituário?
Fica fácil fazer julgamentos quando se tem apenas parte do contexto.
Mais fácil ainda pôr o dedo em riste e apontar o erro do outro.
Não defendo médico cubano nem brasileiro.
Cada qual que responda por si e pelas suas competências (ou falta delas).
Na verdade, somos todos nós vítimas de uma política de saúde fracassada: a população, o médico brasileiro e o cubano.
Talvez ele, o médico cubano, seja vitimizado mais vezes: pelo país de origem e pelo nosso.
E a população, pelo governo e pelas partes que se enfrentam querendo vantagens a qualquer custo.
Julgar pela aparência, por ouvir dizer, por conversas de terceiros nunca foi um caminho seguro.
Vale a pena ouvir com atenção e depois, entender qual a verdade dos fatos.
Vender jornal com informações distorcidas é um bom prato para quem aceita engolir qualquer coisa.



terça-feira, 19 de novembro de 2013

Gente que brilha

Gosto de gente que brilha!
Não porque ofusca o outro, 
mas por liberar de si uma luz tão plena que ilumina o que fica em torno.
Gosto de gente que fala o que pensa, sem tentar a todo custo agradar os ouvintes.
Sinceridade honesta, sem grosseirias, sem animosidade, sem desafetos.
Gosto de gente de fala aberta, riso espontâneo, ideias novas e mirabolantes, cheias de graça e leveza.
Gente que não curte o almoço, mas mesmo assim come sem reclamar ou fazer careta.
Gente que não precisa de álcool nem drogas pra sair de si e curtir a festa.
Gosto de quem compra a briga alheia, só porque se compadeceu da causa do outro.
Gosto de quem dorme quando sente vontade, e quando a vontade falta, respeita a própria inércia e vive feliz assim mesmo...
Gosto de quem ri de si próprio.
Que ouve música em volume alto, canta junto e se diverte sem a presença de mais alguém.
Gosto de quem resolve seus problemas sem importunar o mundo.
Gosto de gente educada, sem formalidade excessiva.
Gentil, sem ser quadrada; 
firme sem ser hostil; 
decidida sem ser autoritária;
persistente sem ser teimosa;
autoconfiante sem ser arrogante.
Gosto de gente que brilha!
Que transforma trevas em luz, 
que faz do dia um propósito e do sono um momento de sonho.
Gosto de gente que mantém a essência de sempre apesar do tempo e das vicissitudes.
Gosto de humor: bom ou ruim, mas presente!
Gente sem sal e nem tempero não dá!
Não dá pra passar pelo mundo sem deixar rastro, 
sem colorir o muro do trajeto, sem registrar presença por onde se passa.
Não dá pra não fazer barulho, viver escondido, encolhido, de sombras ou penumbras.
Não da´pra ser invisível, muito menos viver fingindo para agradar gregos e troianos, fulanos e sicranos.
Por isso gosto de gente que brilha!
A estrela dá sinal.