quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Ih! Ficou pra titia...

Ih! Ficou pra titia!
Mas que alegria!
Melhor notícia não há!
A tia é o que tem de maior
entre a mãe a avó!
O melhor das duas porções.
O convite da praia? É da tia.
O cinema, a piscina? Chama minha tia?
A tia é a companhia
do desenho e da pipoca.
A tia não se importa
da fazer do colo, travesseiro.
Tia passa o dia inteiro
na bagunça, na coberta.
Tia também acoberta
sonhos e segredos.
Tia é mãe emprestada, 
sem a obrigação de educar.
Tia é colega de farra,
dá bronca só se precisar, 
porque para tia o que vale
é aquele grande sorriso,
que escolhe sua presença, 
que brinca sem muito juízo.
Tia é companheira,
conselheira, 
cozinheira de mentira,
que cuida, abraça e aperta, 
faz cócegas na barriga.
Irmã mais velha, 
amiga de travessuras,
diversão garantida,
sempre, sem censuras.
Anjo da guarda,
proteção e carinho.
Tia é abrigo e muitos beijinhos!
Tia é uma festa!
Que bom ficar pra titia!
Quero muito todo dia esta árdua alegria.



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A Rosa

Fechei-me em pétalas.
Como rosa que não desabrocha.
Fechei-me ao sol,
Recusei o orvalho,
Ignorei a bruma da manhã.
Declinei ao convite do dia.
Fui botão que não abre, 
fui flor que não nasce.
Fechei-me em pétalas, 
poque não quis mais ser jardim.
Encolhi-me na cor das flores, 
escondi-me no pequeno espaço das cores.
Fechei-me em pétalas,
recusei desabrochar.
Porque achei que o perfume era muito
para plateia tão pouca.
Porque o espetáculo era rico
num jardim tão pobre...
Fechei-me em pétalas 
porque feri-me em espinhos.
Vítima dos insetos, do terreno infértil, 
preferi calar.
Fechei-me em pétalas porque fui preterida do buquê.
Flor sozinha do jardim,
assim, qual botão que se fechou, murchou, morreu.
Fechei-me em pétalas porque faltou água, faltou luz.
Porque o dia se fez-se sombra, 
O temporal ruiu o encanto
Acabou-se a chance de tornar a ser flor.
Fechei-me em pétalas na singeleza de quem descansa.
Na expectativa de quem dorme.
De quem sabe que no dia seguinte 
haverá uma centelha de  oportunidade.

domingo, 28 de julho de 2013

Coragem

Hoje eu preciso de coragem.
Quem puder ceder a própria em meu benefício, por favor, o faça!
Quero a coragem de sair da cama, 
de pular pra fora,  sem a preguiça que o domingo dá.
Quero a coragem de mudar de planos, de trocar de metas, de substituir funções.
Coragem de gritar ao mundo um tanto de verdades, 
que eu insisto em calar, para não provocar discórdia.
Quero a coragem de quem enfrenta o frio, sem pudor, sem roupas.
A coragem de quem vai pra cozinha, mesmo sem saber cozinhar.
Coragem de quem esquece propositadamente os compromissos que chateiam.
Coragem de quem esquece as chateações com o propósito de se presentear.
Quero a coragem dos fins e dos começos.
A coragem, principalmente, dos recomeços.
Coragem de fazer os pensamentos alcançar alturas!
De cantar bem alto e espantar tristezas, sem receio de desafinar.
Coragem de chorar em público, de mostrar ao mundo o que eu não posso aceitar.
A coragem que faz ser forte, que dá um norte, que traga sorte para mim.
Coragem de saltar sem redes, sem temer a queda.
Enfrentar as feras, se vestir pra guerra, desmontar as máscaras.
Hoje eu preciso da coragem alheia.
Preciso da coragem que sobra para me emprestar.


A mala

Era uma mala grande. 
Praticamente um baú.
Ficava guardada no porão, mantida lacrada, fechada.
Lá dentro havia lembranças, recordações, antiguidades.
Fora esquecida lá durante muito tempo.
Não se lembrava mais o que de importante havia nela.
Até que um certo dia, numa limpeza local,
alguém removeu o lacre.
Arrastada, e aberta, a mala foi devastada.
O pó foi retirado, as teias de aranhas removidas, o cheiro de umidade secou.
De dentro saíram perfumes.
Odores de uma época que não voltariam mais.
Saiu também um grito acompanhando de um choro baixinho.
Saíram aromas de flores,  imagens de gente querida,
pessoas deixadas pela vida, que o  tempo largou pra trás, 
que foram levadas pra longe, pra nunca mais.
Saíram ainda vaga lumes, pequenas borboletas coloridas, 
barulhos de gargalhadas, de conversas animadas na cozinha.
Sons de crianças brincando, de segredos bem pertinho do ouvido, 
um abraço apertado, um beijo demorado, um carinho na face, flashes de imagens,
uma música leve, suave, ao fundo, embalando a descoberta da mala esquecida.
Depois disso, a mala então ficou vazia.
Como vazio ficou o peito do dono da mala.
As lembranças se espalharam pelo porão,
fugiram pelas frestas da casa,
e delas, nunca mais se ouviu falar.
Guardo comigo ainda lembranças queridas.
Permaneço com elas ao lado, bem perto,
escondidas, porém á mostra.
Não quero perdê-las de vista.
Não quero guardá-las na mala.
Não quero se percam no porão, nem que se espalhem pelo vento
ou que vão embora para sempre.
Mesmo que pra isso eu chore, cada vez que visite minhas memórias,
cada vez que releia textos, cartas e mensagens.
Mesmo que pareça apego ao passado.
Mesmo que pareça tristeza a minha nostalgia
ou que embote um pouquinho meu dia, 
nublando de leve minha alegria.
Quero uma caixinha cheia,
na cabeceira da cama.
Que eu possa respirar de vez em quando, 
sem compromisso, mas com o peito cheio de boas recordações.
Mesmo que traga de volta sentimentos já esquecidos, embrulhados há tempos... 
Como hoje.



quinta-feira, 25 de julho de 2013

Tudo certo?

Fazer tudo certo não é uma virtude.
Acho que, além de ser defeito, vem a ser também castigo.
Passar a vida cumprindo regras, normas, horários, ordens e pedidos
transforma os cumpridores em escravos.
Escravos dos outros e de si mesmo.
Espera-se sempre uma postura exemplar, uma frase de efeito, 
uma atitude ponderada, uma fala certa, uma resposta agradável, 
um roteiro programado e calculado e, invariavelmente, 
tudo regado a bons modos e educação impecável.
Quem faz tudo certo, perde a chance de aprender com o erro, 
de mudar de lado, de provar o bom e o ruim e depois, 
decidir calmamente, após a experiência consumada, se faz ou não sentido a própria escolha.
Quem faz tudo certo vive algemado.
Preso a padrões e à conjecturas.
Preso a si mesmo: uma mão presa á outra, sempre, sem poder um aceno sequer dar.
Quem faz tudo certo, quando erra uma única vez, leva açoite.
Carrega a culpa do mundo, tem o nome maculado, a reputação pichada, 
o rosto ferido e a alma jogada na lama.
Quem faz tudo certo vive amedrontado com a sombra do erro.
Porque sabe que um simples deslize pode ser fatal!
Quem quer fazer tudo certo, faz mesmo, é tudo errado!
Vai viver acuado, se castigando perpetuamente por não conseguir fazer diferente,
como o resto do mundo faz, assim, sem culpa, sem ressentimento.
Vai viver dando desculpa, porque nunca vai se confrontar com o erro.
Vai, com a cabeça no travesseiro, choramingar a falha, reconstruir mentalmente todas a possibilidades de conserto e por fim, sem dormir direito, custar a esquecer.
Quem faz tudo certo tem uma mordaça na boca: tem o grito calado, a voz abafada, um remorso gigante, uma culpa perene, um esforço de fuga para o lado contrário, sem conseguir sair do lugar.
Quem faz tudo certo carrega o próprio chicote.
Se tiver um pouco de sorte, se autoflagela sem se machucar.






terça-feira, 23 de julho de 2013

Pior defeito

Pior defeito?
Na minha opinião, o preconceito.
Não há explicação que justifique
o julgamento inoportuno.
Não há definição que convença.
Nem inteligência que resista.
Por mim, cai por terra
qualquer chance de contestação.
Alguém, acaso, pode ser medido
pela cor da pele que tem?
Ou se pode definir o bem ou o mal
pela escolha sexual?
Se a pobreza define índole,
se riqueza escolhe caráter,
perde-se por completo
a ideia de humano de alguém.
Se a diferença de raça afasta,
se o tamanho provoca arestas,
perdoe-me, mas não presta
este tipo de avaliação.
Se o viciado não tem conserto,
se o presidiário não tem recuperação,
é melhor desistir então,
de vez, da humanidade inteira.
Cheia de gente diversa,
caras e cores, 
tamanhos e ares,
pesos e planos tão variantes.
Pra mim, o pior defeito, é gente ignorante...
Que não compreende que a graça está na diversidade,
que não interessa posição social ou idade...
São apenas pequenos detalhes.
Não importa se não vê; o importante é o que se sente.
Não precisa andar, se as palavras atravessam distâncias.
Não precisa falar quando os gestos denunciam e falam por sí só.
Há lugar para o grande e o pequeno, neste mundo, espaço vasto.
A essência vai muito além da aparência.
E o valor, muito além do espelho.
Triste é saber que esse mal ainda existe.



sábado, 20 de julho de 2013

Se eu pudesse...

Se eu pudesse, apagaria.
Borracha gigante na memória.
Lembranças bobas,
pessoas desimportantes,
aqueles pequenos instantes
que não se quer mais lembrar.

Se eu pudesse, apagaria.
Aquele convite,
aquele chilique,
a resposta atravessada,
a pergunta mal elaborada,
a pessoa mal amada
que cruzou o meu caminho.

Se eu pudesse, retiraria
do acervo de lembranças,
os medos de criança,
a rejeição da adolescência,
todos os credos e crenças
que hoje eu sei,
não valem mais.

Se eu pudesse, apagaria
a mágoa, a lágrima,
a vaia, o choro,
o grito, os loucos,
os vários momentos,
que ainda não entendo.
Os motivos que não compreendo,
e que quero nunca compreender.

Se eu pudesse, apagaria.
A casa, o nome, o rosto.
A ideia, a roupa, o posto.
A capa, a língua, o corpo.
Hoje, se eu pudesse,
mudava de mundo também...